Perder alguém nosso por morte é mau. Se não é mau é porque esse alguém não era nosso, não morava na nossa vida. Este negativo assume muitas formas em nós, que estão directamente relacionadas com a ligação existente, história comum, proximidade, dependência até.
Normalmente não está ligado à idade da pessoa que morreu, ou ao risco da sua profissão, ou … a qualquer dos disparates que nos dizem quando nos despedimos de alguém nosso que partiu. “Pois, também já era velhinho…” ou “…foi melhor assim…”. Por que raio continuam as pessoas com estes chavões deslocados? Se calhar era velho mas fazia mais por mim que outros novos!
Todo este processo é natural. Duro mas natural, e a dor que sentimos vai perdendo intensidade até se tornar numa cicatriz, que sentimos ao recordar, mas sem o aperto no estômago, a ansiedade e tristeza que nos enche quando somos chocados com a notícia. Mesmo que previsível, choca-nos sempre.
Menos líquido é quando a partida de alguém nosso deixa sentimento de culpa, assuntos por resolver em vida, coisas por dizer e por fazer. As nossas omissões para com os nossos estão muitas vezes ligadas à falta de coragem para lhes dizer o que sentimos, ou ao sucessivo adiar disto ou aquilo, que mais não é que ceder à pressão e deixar inverter as prioridades da nossa vida. Se queriamos ter feito, podiamos ter feito e não fizémos, foi porque as nossas prioridades não estiveram correctamente hierarquizadas.
Neste caso, temos um problema para resolver. Um problema nosso, que não é de mais ninguém, nem daquele que se foi. É connosco. Gostaríamos de poder apagar, mas não dá. De nada vale agora chorar as oportunidades perdidas e afundarmo-nos no que poderia ter sido e não foi. Expiar a culpa e o remorso só se consegue pela mudança da nossa atitude, a reformulação das nossas prioridades, a superação da inércia em prol das oportunidades que ainda temos e não queremos perder. Só com esta conquista nos podemos resolver. A mágoa fica sempre.