"A nossa felicidade depende mais da forma como sentimos os acontecimentos do que dos acontecimentos em si".
Há dias dei comigo a pensar isto mesmo. A frase é minha, mas talvez tenha sido escrita por alguém mais, tão evidente é o facto. O que choca é que, diariamente, nos alheamos dessa evidência e sofremos o impacto dos acontecimentos negativos na nossa esfera emocional, como se nada pudessemos fazer para minorar esse efeito que nos desgasta e destrói. Tanto, que ficamos depois limitados na capacidade de deixar que os acontecimentos positivos nos encham verdadeiramente, que nos façam felizes.
Não confundam, por favor, esta concepção com o espírito da afirmação do Coelho, que tenta impingir acontecimentos como o desemprego, gerados pelas atrocidades económicas por ele cometidas ou avalizadas como algo positivo. Nada disso. Acontecimentosnegativos são, efectivamente, negativos e nada têm depositivo. A questão é outra: Como podemos influenciar a forma como sentimos os acontecimentos e deixamos que nos afectem. Nada de vender coelho por lebre...
Mais importa, para mim, tratar dos acontecimentos negativos, porque o não aproveitamento dos positivos tem origem no excessivo relevo emprestado aos negativos.
Penso, até, que este exercício de influenciar a forma como sentimos o que "nos acontece" pode ser subdividido de acordo com a dimensão desses acontecimentos. De um lado, as "merdices diárias" que nos desgastam e consomem, e, do outro, os acontecimentos com capacidade de nos "deitarem abaixo".
Para as primeiras, o que faço é tentar antevê-las, programá-las no decurso do dia, intercalá-las com pequenos momentos agradáveis, tal como fazemos,quando alimentamos as crianças, com o acompanhamento e o conduto (normalmente, gostam mais do conduto...). Este esforço começou mais pelo meu temperamento, de forma a evitar explosões de agressividade que habitualmente não são muito bem recebidas e que dificilmente nos beneficiam. Percebi, depois, que, quando faz parte das nossas obrigações aturar gente estúpida,mais vale desvalorizar à dimensão do interlucutor e divertirmo-nos com o inevitável ridículo. Não vale a pena tentar mudar quem está calcinado nas suas convicções redutoras e mentecaptas, é muito desgaste para um eventual resultado residual. Para tal, temos de estar preparados e com um estado de espírito que evite de nos envolvermos a nós, ao nosso "eu", nas cavalidades que se dizem e insinuam, temos de ter a capacidade de estar de corpo presente, mas a nossa mente ver a situação como"outsider". Divertimento garantido! Caso tenhamos, em seguida, um evento agradável, que permita descomprimir o que, inevitavelmente, foi a nossa reserva mental, o peso do evento cretino é menor, muito menor.
A verdade é que o que nos poderia ter desgastado de forma a que, quando chegássemos junto dos nossos, nãotivessemos capacidade de aproveitar por estarmos pressionados, fatigados, exaustos, fica, desta forma,menor, mais leve e liberta-nos para podermos viver, ser felizes, nem que seja por uns minutos.
Para as segundas, dedicarei outro dia, que este já vai longo.
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