Os chamados acontecimentos traumáticos,
são os que rebentam connosco, e depois ficam agarrados como um parasita que se
alimenta do nosso espírito, provocando o desgaste da sanidade que ainda
tenhamos. São os que representam uma perda significativa de algo que tínhamos
(ou achávamos que tínhamos) ou os que acarretam uma carga grande de (pelo menos
no nosso entendimento) injustiça.
Mais uma vez, nada de positivo
existe neste tipo de acontecimento, e na maior parte das vezes somos impotentes
para alterar os factos ou a situação que tanto impacto tem no nosso espírito,
destrói a nossa paz e nos corrói por dentro. Em resumo, uma realidade que não
conseguimos alterar, agarrada que nem uma lapa a provocar angústia, da forte.
Contra tudo o que nos possa
parecer que seja o caminho para nos sentirmos melhor, como vingança, compensação
por substituição, etc., a única forma de
sarar esta ferida é aceitar!
A aceitação é a única forma de
ultrapassar os acontecimentos negativos que não conseguimos mudar.
Pode parecer lógico e o caminho
natural a seguir, o da aceitação, mas na verdade acaba por ser o que está mais
distante, é mais difícil alcançar e é naturalmente o menos intuitivo. As
características dos acontecimentos que vimos anteriormente, são as mais
difíceis de aceitar, injustiças e perdas! Ninguém engole uma injustiça, ou dá
algo como perdido e pronto, amanhã é outro dia… Parece que nos estão a arrancar
um bocado, a nossa integridade fica abalada, sentimos o nosso edifício interior
esmagado, e dói. Dói que se farta!
Intuitivamente, procuramos uma
explicação. É mais fácil aceitar algo que se compreende, que se processa
racionalmente e faz sentido. Na ausência de uma, conjeturamos explicações
possíveis, normalmente relacionadas connosco, com o nosso lado frágil… Estamos
cada vez mais longe da aceitação, estamos a gerar um processo de
auto-responsabilização, em menos de nada, sentir-nos-emos um lixo.
Em alternativa, podemos fechar o
assunto numa gaveta, ou debaixo do alçapão das nossas tormentas, fingirmos que
não existe e tentarmos acreditar que o tempo dissipará o mau cheiro que dali
emana. Tentaremos sobrepor alguns perfumes, de outros acontecimentos que nos
fazem felizes, de entretenimentos ou “escapes” que nos transportam
temporariamente para um local mais perfumado. O problema é que, mesmo debaixo
do alçapão, esquecido e arrumado, está lá. Por resolver.
Então como se faz? Como se
aceita? Como é que se engole um sapo do tamanho do mundo?
Cada um de nós tem uma forma, e
tem de descobrir a sua. O mais importante é que consigamos perceber qual é a
nova realidade, o que de facto mudou, e o que é o melhor para nós na nova
realidade, o que vamos querer para o nosso futuro. De nada adianta agir como se
não tivesse existido nada de negativo, a aceitação começa pela
consciencialização das consequências. Ajuda também se tivermos presente que vai
doer (tal como eu digo aos meus filhos quando vão levar a vacina), que vamos
chorar a tristeza, ou a raiva, ou ambos os sentimentos. A verdade é que, como
qualquer ferida correctamente curada, vai doendo cada vez menos, até que fecha
e deixa de doer, apesar de deixar a cicatriz, de que nos lembramos sempre que
alguém ali toca.